Pesquisadora brasileira integra grupo mundial de pesquisa aeroespacial

Professora Doutora Marcella Scoczynski integra grupo de pesquisa junto à NASA e mostra a força da pesquisa em tecnologia produzida em solo nacional

Desbravar e conhecer o universo. Esse é o sonho de muitas crianças e não foi diferente com Marcella Scoczynski. Quando criança, queria ser astronauta e o interesse pela pesquisa levou a paranaense a se graduar em Engenharia de Computação e se tornar professora do departamento acadêmico de Eletrônica Câmpus Ponta Grossa da UTFPR.

Hoje, a professora doutora, além de desenvolver seu trabalho como docente e pesquisadora da UTFPR, também é membro de um projeto desenvolvido pelo Frontier Development Lab (FDL), NASA e o Instituto de Pesquisa Norte-Americano SETI Institute, em uma equipe multidisciplinar e mundial que desenvolve projetos voltados para Inteligência Artificial (IA) aplicada aos estudos da origem dos ventos solares e suas interferências em nosso planeta.

A Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação no Paraná (Assespro-PR) traz abaixo uma entrevista com Marcella, que é um exemplo para as mulheres que querem ingressar na área da tecnologia, sobre como foi essa trajetória, seus desafios e conquistas. Confira:

Assespro-PR: O que te levou a escolher a engenharia como profissão? Como foi sua trajetória?

Marcella Scoczynski:  Eu sempre gostei do espaço, da possibilidade de estudar os planetas e a nossa galáxia. Sempre quis ser astronauta. Quando eu era pequena, mandei uma carta à NASA e eles me responderam o que eu teria que fazer para me tornar astronauta. Algumas sugestões eram relacionadas com cursos de Engenharia e Astrofísica. Assim, fiquei tentada a estudar Engenharia Aeronáutica no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), porém o curso era em outra cidade. Fiz o processo seletivo, mas não fui aprovada. Porém fui aprovada em Engenharia de Computação na UEPG, em Ponta Grossa, em 1º lugar. Fui a única mulher da turma. Foi difícil como qualquer curso de Engenharia. Também me graduei em Tecnologia em Eletrônica na UTFPR Ponta Grossa. Trabalhei na área e sempre fui tratada com muito respeito e igualdade. Depois fiz o Mestrado em Engenharia Elétrica e Informática Industrial na UTFPR e o Doutorado na área de Inteligência Artificial.

Assespro-PR: Como se deu a opção pela vida acadêmica?

MS: Sempre gostei da área de pesquisa em si, porém sem deixar a engenharia das coisas de lado. Mesmo trabalhando na área de Engenharia, eu sempre ministrei aulas no período noturno – sempre foi uma paixão. Então, surgiu o concurso público e optei pela vida acadêmica, e a ideia de seguir a trajetória nos cursos de engenharia e tecnologia trazendo a pesquisa aplicada me deixa realizada profissionalmente.

Assespro-PR: Qual a tua área de estudo hoje?

MS: Minha área de atuação é a Inteligência Artificial. Atualmente, temos um grupo de pesquisa onde estudamos diferentes técnicas computacionais aplicadas a diferentes problemas de engenharia, saúde, astronomia e biomédica. Alguns destes problemas envolvem reconhecimento de imagens, classificação de doenças e otimização de sistemas.

Assespro-PR: Poderia falar um pouco sobre o projeto desenvolvido junto à NASA? Como foi a aproximação e o que desenvolveram?

MS: O objetivo do projeto é analisar as estruturas dos ventos solares, pois, apesar de constituírem a beleza da aurora boreal, sua estrutura eletromagnética pode causar grande impacto, como danos nos satélites e nas espaçonaves em órbita, na vida dos astronautas, que sofrem intensa radiação, além de impactos relacionados com o nosso cotidiano, como interferência nos sinais de rádio e de navegação (GPS), até danos causados no sistema de transmissão de energia elétrica. Além disso, a análise da origem dos ventos pode auxiliar no estudo de vida em outros planetas.

Assespro-PR: Como é conduzido esse projeto?

MS: O projeto é conduzido pelo Frontier Development Lab (FDL), NASA e o Instituto de Pesquisa Norte-Americano SETI Institute. Reúne cientistas, astrofísicos, parceiros comerciais (como Google Cloud, IBM, Intel e NVIDIA) e pesquisadores de várias instituições, como a Southwest Research Institute (EUA), a Universidade da Califórnia (EUA), a Universidade de Viena (Áustria) e a Universidade de Oxford (Reino Unido).

Os cientistas e pesquisadores são selecionados e convidados para integrar o time, cada um contribuindo em sua área e, no meu caso, na inteligência artificial. Assim, aplicamos técnicas computacionais para estudar a origem dos ventos solares e seu impacto na Terra.

Assespro-PR: Na sua opinião, ainda existe muito “tabu” quanto às mulheres que se destacam no ramo da tecnologia?

MS: Acho que ainda podemos melhorar. Algumas empresas ainda demonstram uma valorização diferente entre homens e mulheres, mas isto está mudando. Um aspecto que culmina nesta mudança é que mais mulheres estão se descobrindo nas áreas da tecnologia, ultrapassando limites que na realidade nunca deveriam ter existido. Assim, quanto mais de nós existirem no campo, mais chances de mostrarmos o profissionalismo e humanismo atrelado à nossa liderança.