O que esperar do ambiente de inovação brasileiro em 2021?

Depois de termos passado quase um ano mergulhados em uma crise sanitária que poderia ter afundado a economia a níveis irrecuperáveis, eis que vemos uma evolução cultural no uso de tecnologias que permitiu que o impacto não fosse catastrófico. Devemos fechar o ano com uma queda do PIB próxima a 4,8%, mas a recuperação no terceiro trimestre em comparação ao trimestre anterior mostra que nosso nariz já saiu da lama. Obviamente, ainda vai demorar para a locomotiva voltar à velocidade que estávamos em fevereiro de 2020, mas ao menos parece que já chegou um pouco de carvão.

Para o cenário de inovação, toda crise vira oportunidade. Governos, empresas e universidades saem da sua zona de conforto e são obrigados a responder rapidamente às necessidades da sociedade. E um vírus de nome estranho conseguiu tirar todo mundo do eixo, obrigando que a palavra da moda, “inovação”, se tornasse um pré-requisito de sobrevivência.

A Política Nacional de Inovação foi publicada em outubro, mesmo mês em que foi lançada consulta pública sobre a Estratégia Nacional de Inovação, encerrada em novembro. O Marco Legal das Startups foi aprovado na Câmara e agora segue para o Senado, enquanto o Marco Legal de Inovação, que entrou em vigor em 2016, parece que, enfim, começou a ser utilizado por instituições públicas.

Laboratórios de inovação de órgãos e empresas públicas emergiram com força. Os movimentos ainda não são muito ágeis e a burocracia emperra mudanças mais profundas, mas ao menos é visível que o primeiro passo para a transformação cultural foi dado.

As grandes empresas – essas sim – foram obrigadas a dar um salto gigante. Até então, os movimentos de inovação aberta eram tímidos e restritos a algumas companhias. A pandemia veio como um tapa na cara. Muitos funcionários foram demitidos ou tiveram carga horária reduzida. Meses se passaram e o conhecimento sobre o novo coronavírus fez com que compreendêssemos que ele não iria embora tão cedo.

O senso de urgência entrou em modo on e as tomadas de decisão se tornaram mais breves. O recurso para inovação que tinha sido cortado do orçamento no início da pandemia teve que retornar para garantir a manutenção dos negócios. Software as a service virou a frase da vez para resgatar grandes operações e jogá-las no mundo digital de uma vez por todas.

Ainda há problemas? Muitos! Arquiteturas de softwares nem sempre se comunicam com outros softwares, a estrutura de coleta de dados para gerar inteligência confiável ainda é precária, as equipes ainda não são tão ágeis e tão centradas no cliente. Além disso, 85% do contato com consumidores é iniciado pelo meio digital, mas 68% ainda são solucionados por telefone, segundo estudo “Cenário do Relacionamento com o Cliente no Brasil”, realizado pelo Centro de Inteligência Padrão (CIP). Apesar disso, é inquestionável que o avanço de 2020 foi superior aos últimos cinco anos – e o ritmo deve acelerar em 2021.

E as startups? Essas parecem ter encontrado força para crescer em meio ao caos. Fechamos 2020 como o ano de maior aporte de fundos de investimento em empresas do gênero no país. Tivemos quatro novos unicórnios, posicionando o Brasil como um dos 10 países do globo com maior número de startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. Com o mundo todo oferecendo retornos baixos para qualquer tipo de investimento, parece que o capital de risco em países como o nosso, de grandes economias e com muitos problemas para resolver, só deve aumentar.
Só que investimentos são consequência de trabalho e operações bem feitas. As startups têm muito para ensinar. Criam, testam e aprendem rapidamente. São multidisciplinares por definição. Trabalham com mais propósito e com menor hierarquia. Lucratividade é importante, mas o cliente é superior. Por isso, certamente veremos outros unicórnios no estábulo brasileiro em 2021, além de muitas startups ajudando grandes empresas e, oxalá, os governos se transformando em uma melhor versão deles mesmos. Em 2021, que venha a pluralidade nos negócios!


Fonte: Gazeta do Povo