Mulheres na T.I: Alciomara Kukla, uma mulher de negócios

Atuando em um mercado formado predominantemente por homens, hoje na Nokia Software, ela mostra sua força e conta como conseguiu alcançar o status de líder

Ela sofreu discriminação de gênero no início de sua carreira, e hoje é uma das mulheres com cargos de liderança com destaque em toda a América Latina! Conheça a história de Alciomara, ou Mara Kukla como muitos a conhecem. 

 

Alciomara Kukla é uma comandante nata. Desde 2018 atua na Nokia Software como Líder de Mercado na América Latina, trabalhando com inovação, transformação digital e gestão de unidades de negócios em organizações de alto crescimento.

Formada em Economia, Alciomara é uma mulher de negócios que decidiu apostar no setor de TI, um mercado composto em sua maioria por homens. Em sua trajetória de 20 anos de profissão, passou por grandes empresas como CA, DELL, KPMG, PwC, Accenture e Oracle, acumulando experiência internacional nos mercados brasileiro e latino-americano.

Em um bate papo com Ana Lúcia Bittencourt Starepravo, Diretora de Mulheres na Tecnologia da ASSESPRO e com a jornalista Patrícia Stedile, Alciomara revela os desafios de encarar a profissão e de conquistar o respeito e a admiração de seus liderados.

Leia a entrevista exclusiva: 

ASSESPRO: Como está sendo o trabalho home office na área de tecnologia nesse período de pandemia?

Alciomara Kukla: Sempre trabalhei de forma remota, mas o que enfrentamos agora é bem diferente. Estamos falando de confinamento. Tenho mais de 150 pessoas que se reportam a mim. Para mantermos a força psicológica temos feito diversas ações, entre elas happy hours virtuais com as equipes. É interessante ouvir os depoimentos. Nesse setor a maior parte é de homens e percebemos o desespero deles para voltar a trabalhar presencialmente. O maior problema relatado é conciliar a rotina do trabalho com o da casa. Alguns se adaptam melhor, mas poucos estão completamente satisfeitos com o home office. Além disso, o trabalho aumentou significativamente nesse período.

ASSESPRO: Qual o motivo desse aumento de demanda de trabalho?

Alciomara Kukla:  As operadoras tiveram um grande aumento no tráfego de banda larga com o crescimento do consumo e de aplicativos, redes sociais e Netflix, por exemplo. Temos que trabalhar em dobro para que as operadoras possam suportar o crescimento de tráfego. Além disso, as operadoras não estão acostumadas a trabalhar de forma remota e começaram a pressionar mais as equipes, inclusive com um número maior de reuniões. Hoje é normal marcar uma reunião para depois do horário. Também, na minha opinião, a insegurança com a pandemia também fez com que a demanda crescesse fazendo as pessoas trabalharem mais.

ASSESPRO: Já existe uma previsão para que todos voltem a trabalhar nos escritórios?

Alciomara Kukla: A Nokia está fazendo pesquisas com os funcionários para tomar uma decisão. Em algumas áreas, como administrativas, é importante o trabalho presencial. Por enquanto não há uma data para voltarmos aos escritórios

ASSESPRO: Como economista, como você foi parar no mercado de tecnologia?

Alciomara Kukla: No início da minha carreira comecei consultoria estratégica e de melhoria de performance de processos. Naquela época eu ainda não acreditava que tinha o perfil de um profissional de TI, mas fui percebendo que havia uma demanda grande de trabalho e uma carência de qualificação. É difícil encontrar uma pessoa que conheça ao mesmo tempo de negócios e de tecnologia. Eu conhecia muito de negócios e trabalhei com diversos tipos de tecnologia. O que mais me estimulou a chegar nessa posição foi o conhecimento de negócios que adquiri ao longo do tempo. Considero-me uma grande gestora, e as empresas de tecnologia geralmente precisam de alguém que pense de forma mais consultiva, que desenvolva soluções que vão ao encontro das necessidades do cliente. Eu valorizo muito o trabalho em equipe, isso é fundamental.

ASSESPRO: Você acredita que essa capacidade de formar equipes é uma característica feminina?

Alciomara Kukla: As mulheres têm uma visão melhor do todo. Porém, é difícil dizer que essa é uma característica exclusivamente feminina. Acredito que algumas pessoas têm uma pouco mais dessa visão do que outras, e vejo que as mulheres fazem muito bem isso: ouvir, enfrentar desafios, emitir opinião para fazer com as coisas aconteçam. Tenho tido excelentes experiências.

ASSESPRO: As mulheres estão mais adeptas a área de tecnologia atualmente?

Alciomara Kukla: Hoje eu tenho sete diretores, todos homens. Prefiri fazer o recrutamento para estas posições sem ajuda, então fiz questão de entrar em contato com todos da mesma forma, homens e mulheres. Enviei uma mensagem falando da oportunidade e solicitei um retorno para que pudéssemos agendar uma conversa. Nenhuma mulher retornou, mesmo eu insistindo. Os homens retornaram e acabei efetivando a contratação.

ASSESPRO: Qual o motivo do desinteresse das mulheres pela área de tecnologia?

Alciomara Kukla: É uma impressão pessoal, não tenho dados concretos. Mas acredito que poucas estão interessadas nessa carreira. A atividade é gratificante, mas tem que gostar da área de TI, onde não temos horários e volta e meia passamos a noite trabalhando. As janelas de manutenção são sempre de madrugada e quando se escolhe essa carreira é preciso estar disponível para tudo isso. Algumas mulheres não se sentem atraídas. É impressionante a dificuldade em mostrar as vantagens da profissão, especialmente quanto a remuneração, o que é bastante relevante se levarmos em conta o mercado de trabalho atualmente.

ASSESPRO: Como você se sente no papel de liderança e como os homens te enxergam nessa posição?

Alciomara Kukla: Eu sempre busco um feedback da equipe. Geralmente fazem relação da minha posição profissional com a de ser mulher. Alguns falam que não sou a primeira chefe deles, mas destacam que já tiveram ótimas experiências com outras chefes mulheres. Outros dizem que sou surpreendentemente positiva (risos). Destacam minha capacidade de criação de uma equipe. Cada um deles tem um perfil completamente diferente. Sem liderança poderia haver algum atrito em relação a isso. Nossa área é de serviços para clientes externos e internos, o que exige relacionamento político muito forte. Segundo eles, a minha capacidade em desenvolver relacionamentos faz com que tudo flua mais facilmente e abra novos caminhos. Outra coisa que eles falam é que sou gentil nas horas certas e firme quando necessário. Se eu vejo que algum deles poderia desenvolver melhor certa atividade, ou algum nicho de comunicação que poderia ser aperfeiçoado, procuro alinhar rapidamente, afinal alguém tem que tomar as decisões e elas precisam ser respeitadas. Sinto-me muito bem fazendo esse papel.

ASSESPRO: Em algum momento você sentiu algum tipo de preconceito ou resistência no mercado de trabalho por ser mulher?

Alciomara Kukla: Tive! Eu me formei em 91 e queria seguir uma carreira de economista. Me candidatei a trainee em duas grandes empresas e em ambas fui recusada pelo simples fato de ser mulher. Em uma delas me disseram que tinha ido muito bem. A decisão ficou entre mim e um rapaz, e optaram por ele alegando que preferiam um homem para a função. Na outra, ainda como estudante, eu já prestava serviços. O dono falou para eu voltar quando estivesse formada para falar diretamente com ele. Participei de todos os testes e me disseram que eu poderia escolher qualquer função na empresa, exceto na auditoria interna. A justificativa foi que, em uma equipe formada totalmente por homens, por eu ser mulher iria aumentar os custos de viagens por ter que dormir em quarto sozinha.

ASSESPRO: A Nokia tem algum tipo de incentivo na contratação de mulheres?

Alciomara Kukla: Sim! Sempre estamos avaliando os nossos percentuais de colocação, fazemos um acompanhamento global e buscamos trazer mulheres para nossas equipes. Mas antes de tudo temos que buscar resultado, não é simplesmente gênero por gênero. Eu acredito que as mulheres precisam se sentir motivadas, saber que trabalhar nessa área de tecnologia é incrível. Sempre estamos lidando com inovação, é onde elas poderão sair da mesmice e se realizar profissionalmente. É uma área para quem quer realmente se destacar e deixar um legado. Nós, que trabalhamos com tecnologia, estamos preparando o mundo para o futuro. Precisamos de mais mulheres participando disso. A tecnologia é o que vai propiciar níveis melhores de qualidade de vida, impactando positivamente nas condições sociais, que é o que todos procuramos.