Diretora Sênior do PayPal Brasil, Paula Paschoal, fala sobre empoderamento feminino e inserção das mulheres no mercado de tecnologia

Tudo acontece muito rápido no universo da tecnologia, não é mesmo? E não poderia ser diferente quando falamos da presença das mulheres neste mercado de trabalho, que antes era predominantemente masculino, mas que vivencia atualmente a crescente inserção delas nas empresas do segmento. 

Para quebrar cada vez mais paradigmas e mostrar que as mulheres estão aptas e são capazes inclusive de exercer cargos de liderança em TI, entrevistamos Paula Paschoal, diretora sênior do PayPal Brasil.

Paula está no PayPal desde o início das operações da companhia no País e, desde julho de 2017, é diretora sênior do PayPal Brasil, estando à frente da estratégia da empresa no maior mercado na América Latina, com 4.3 milhões de contas ativas. Ela é a responsável pela expansão dos negócios locais e estratégia de parcerias.

Desde dezembro de 2015, a executiva ocupava a diretoria Comercial do PayPal no Brasil, liderando o atendimento a grandes contas, além da área de Pequenos e Médios Negócios. Antes disso, desde julho de 2010, Paula foi diretora de Vendas e Desenvolvimento de Negócios do PayPal no País, período em que alcançou resultados expressivos na conquista de novos clientes e na expansão de parcerias já estabelecidas.

A Diretora Sênior é formada em Administração de Empresas pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), tem pós-graduação em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas/SP e, de 2007 a 2010, foi head do site Fnac.com.br. Antes da Fnac, trabalhou no Hotel Transamérica, na Câmara Americana de Comércio (Amcham) de São Paulo e na AMD.

A entrevista para o site da Assespro-PR foi intermediada pela Diretora Adjunta da Mulher da Tecnologia da entidade, Ana Lúcia Bittencourt Starepravo.

 

Assespro-PR: Nosso desafio na diretoria de ‘Mulheres na Tecnologia’ é incentivar mulheres a virem para um segmento onde somos minoria (representamos menos de 20% dos profissionais que atuam na área). Como você acredita que podemos incentivá-las? 

Paula Paschoal: Empoderando-as. Empoderamento é uma palavra que tem diversos significados. Ela engloba noções de representatividade, sororidade e colaboração. Empoderar é permitir que uma menina ou uma mulher suba um degrau, contribuir para que conquiste seu espaço, seja de fala ou de trabalho. Não menos importante: enaltecer a si mesma. Como diretora sênior de uma empresa que tem a tecnologia em seu DNA, sinto que o modo mais fácil (ou menos difícil) de reduzir o gigantesco fosso que ainda existe entre homens e mulheres em termos de participação no mercado de trabalho, salário, oportunidades de desenvolvimento e crescimento profissional é por meio do incentivo às meninas, desde pequenas, para que sigam carreiras de STEM (siga em inglês para Science, Technology, Engineering and Mathematics). Aproveito para citar um programa do PayPal do qual gosto muito: chama-se Girls in Tech, iniciativa da empresa em resposta ao fato histórico de que as garotas não são devidamente apresentadas às ciências exatas na mesma proporção dos garotos – trata-se de uma área do conhecimento que ficou mais concentrada nas mãos dos homens com o passar dos anos. E não há nenhuma razão objetiva para isso. O Girls in Tech nasceu nos Estados Unidos, em 2015, e agora já tem iniciativas-irmãs em diversos países onde o PayPal mantém escritório, como Singapura e Índia. Ele reúne meninas de 8 a 14 anos durante duas semanas nos laboratórios da companhia, onde elas aprendem conceitos de programação e os colocam em prática, monitoradas por especialistas do PayPal.  O que fazemos hoje, como sempre digo, terá impacto profundo no futuro das mulheres nesses setores tão importantes para qualquer país que queira ser grande.

Assespro: Quais competências são necessárias para trabalhar diretamente com tecnologia ou em empresas com este foco?

PP: Não acredito em regras nem em características em particular. Posso citar alguns itens, que, creio, são fundamentais para qualquer mulher que queira crescer na carreira e atingir postos de comando em suas organizações, independentemente do setor da economia:

Passe a vida procurando um mentor (ou uma mentora) – Eleger pessoas inspiradoras é muito importante no início da carreira e devemos sempre renovar esta lista, de acordo com o momento que vivemos e as experiências já acumuladas. Ser uma grande líder implica também se comprometer a ser uma eterna aprendiz, e tanto ser quanto ter um mentor ou mentora é uma experiência que pode fazer a diferença na sua vida. Nunca pare de aprender – e esteja sempre disposta a ter suas ideias questionadas, pois esse é o caminho para mudar e melhorar. Aprenda a ouvir os outros e respeitar o timing de cada um. No meu caso, me tornar mãe foi crucial para que eu entendesse o que precisava mudar no meu dia a dia à frente da equipe.

Entenda o negócio da sua empresa e amplie suas conexões – Compreenda o ecossistema de negócios a sua volta. Informe-se sobre as tendências que impactam a sua área, concorrência, mudanças econômicas e relações políticas que possam influenciar o mercado em que você atua. Ser reconhecida como uma “trusted partner”, que entende cada ângulo do negócio, e que propõe e ajuda a executar mudanças que favorecem a organização e trazem resultados, facilita promoções e possibilita à profissional navegar em diversas áreas da empresa ao dar suporte estratégico às decisões-chave. Desta forma, você não limitará suas conexões. Não pense que, porque você quer ser gerente de Vendas, por exemplo, precisa se relacionar apenas com profissionais dessa área. Muito pelo contrário: é bom se inteirar do trabalho dos mais diversos departamentos, inclusive os técnicos e o financeiro. Mantenha contato com um grupo de profissionais de fora da sua empresa e use as dicas e experiências de trabalho deles para ser mais criativa, assertiva. Expandir seus contatos é um bom conselho para qualquer profissional, mas é especialmente importante para as mulheres, pois nossa jornada costuma ser muito mais desafiadora.

Tenha em mente que os desafios dizem muito sobre você – É fato que cedo ou tarde você irá enfrentar desafios na carreira, e seu sucesso é determinado pela forma como irá lidar com essas dificuldades – de preferência com serenidade e objetividade. O segredo é se lembrar que qualquer desafio é uma oportunidade, por mais que a frase soe clichê. Um desafio é, mesmo, uma grande chance de mostrar do que você é capaz. E desafios são mais bem enfrentados com colaboração. Liderança é isso: conseguir que as pessoas sob sua gestão olhem, ao mesmo tempo, para a mesma direção.

Assespro: Sua carreira foi meteórica. Assumiu a Diretoria Sênior do escritório no Brasil da maior empresa de pagamentos do mundo e passou com destaque pela FNAC. Como conseguiu se destacar em mercados tão dominados por homens?

PP: Foi um crescimento orgânico, sem pressões e sem queimar etapas. A internacionalização do mercado influenciou minha carreira no sentido de melhorar minha formação. Quando trabalhei na AMD, já havia concluído minha faculdade e também um curso de gestão de MKT no Varejo na FGV. No PayPal, tive a oportunidade de estudar de novo nos Estados Unidos (havia feito intercâmbio quando adolescente). Desta vez, frequentei um curso na Universidade de San Diego, na Califórnia, e participei de treinamentos internos na matriz do PayPal e do eBay. O objetivo era me preparar para atuar como gestora e executiva, visando o próximo passo a ser dado rumo ao crescimento na empresa. Lembro-me do programa de formação de líderes, conhecido como Shadow, cuja proposta era acompanhar um dos principais executivos da companhia, em todas as suas reuniões, durante uma semana. Assim, aprendi novos estilos de negociação, liderança e estratégia, no intuito de acrescentar à rotina ensinamentos tão valiosos. E preciso destacar também que o PayPal é uma das empresas que mais investem em equidade de gênero. Desde 2016, por exemplo, a empresa paga a homens e mulheres salários iguais se exercerem cargos análogos. 

Assespro: Dados da Bloomberg apontam que dos 44 milhões de trabalhadores em setores vulneráveis, cerca de 31 milhões de mulheres enfrentam possíveis demissões em comparação com 13 milhões de homens, destacando que, globalmente, mulheres são mais vulneráveis a perder o emprego durante a crise.Fonte: https://www.uol.com.br/universa/noticias/bloomberg/2020/05/21/demissoes-de-mulheres-durante-pandemia-podem-eliminar-us-1-trilhao-de-pib-global.htm

No entanto, a área de tecnologia não consegue preencher posições por falta de profissionais. Você acredita que esta crise atual incentive mulheres a mudarem de área?

PP: A Covid vai transformar a nossa vida de diversas formas. Uma delas diz respeito à maneira como consumimos e nos relacionamos. Isso é certo. Mas não devemos acreditar que a pandemia mudará certos cenários que dependem do nosso trabalho diário. Temos de aproveitar o fato de que vivemos em um mundo no qual o termo “empoderamento feminino” está finalmente na moda para fazer ainda mais, batalhar dia e noite, pela igualdade no campo das ciências exatas. Isso porque países como o nosso só terão chance de atingir patamares mais elevados de renda e PIB se investirem em tecnologia e inovação, e as mulheres brasileiras são, já há muito tempo, mais bem preparadas do que os homens, segundo o IBGE. É questão de se fazer justiça.

Assespro: Uma CEO aborda a gestão de pessoas de forma diferente de um CEO?

PP: Não acredito naquela fórmula antiga segundo a qual mulheres de sucesso precisam ter certas características masculinas ou trabalhar mais do que os homens. Mas claro que, como mulher, alguns temas me chamam mais a atenção. Por exemplo: quando temos uma vaga no PayPal, faço questão que tenhamos uma mulher como finalista. Como líder, cobro resultados. Mas tenho muita ciência de que as pessoas são diferentes de mim. E respeitar essas diferenças é fundamental para criar um ambiente de trabalho que permita às pessoas desenvolverem seus potenciais. Além disso, sou apaixonada pelo que faço e procuro estar sempre muito próxima do meu time, trabalhando em parceria e sem perder de vista que estou lidando com pessoas, não meros executores de tarefas. Isso pode significar, por exemplo, investir em um horário mais flexível, que permita às pessoas levar e buscar seus filhos na escola. Eu mesma, apesar da função que ocupo, não preciso sacrificar meu tempo com a família. Creio que é esse equilíbrio que fortalece o grupo e cria vínculos mais duradouros entre funcionários/colaboradores e a companhia onde trabalham.

Assespro: Qual dica você daria para as mulheres que querem entrar na área de tecnologia?

PP: Não aceite que as pessoas te imponham limites e não se sabote com pensamentos como “computação é uma área restrita aos homens, então nem vou perder tempo tentando aprender” ou “nem adianta me candidatar para a diretoria, pois mulher nunca passa da gerência nessa empresa” – aliás, se esta segunda frase se mostrar verdadeira, pode estar na hora de você enviar currículos. Além de eliminar barreiras organizacionais que impedem as mulheres de chegar ao topo nas corporações, temos de nos unir para mudar culturas machistas, obsoletas, que não têm mais lugar na sociedade. Isso significa que é preciso encorajar cada vez mais mulheres e meninas a se interessarem e aprenderem programação, processos e habilidades técnicas (STEM), territórios antes ocupados por homens, para que não haja mais profissões ou departamentos prioritariamente masculinos.