Comissão da ONU propõe universalização da Internet no combate à pandemia na América Latina

A Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), propôs que a região garanta a universalização da Internet para enfrentar os impactos da pandemia. Segundo comunicado nesta quarta-feira, 26, a ideia é promover conectividade e acessibilidade a tecnologias digitais por meio de uma “cesta básica digital”, composta por smartphone, tablet e um plano de conexão para lugares com carência de conectividade. O custo anual para isso seria “inferior a 1% do PIB”.

O cenário para isso é o desafio. A Cepal coloca que a América Latina ainda tem um terço da população desconectada, o que significa falta de acesso a serviços de saúde, educação, trabalho, entretenimento e informação. E o que torna a Internet um serviço essencial, como aconteceu no Brasil no início da pandemia.

A iniciativa é baseada em cinco linhas de ação:

  • construção de sociedade digital inclusiva
  • impulsionar a transformação produtiva
  • promover a confiança e a segurança digital
  • fortalecer a cooperação regional direta
  • avançar para um novo modelo de governança para assegurar um “Estado de bem estar digital” que promova a igualdade; proteja os direitos econômicos, sociais e trabalhistas da população; garanta o uso seguro de dados; e gere mudança estrutural progressiva.

E em um cenário de mudança estrutural, a entidade prevê uma migração para a demanda digital. Os governos devem seguir os esforços para a digitalização. Tudo isso deverá requerer:

Padrões de investimento, incluindo desenvolvimento de redes 5G
Regionalização das cadeias de suprimento, com maior proximidade de fornecedores
Adoção de tecnologia avançada e automatização na agricultura
Manufatura, diagnóstico e manutenção remotas, com modelo híbrido de trabalho de campo/presencial
Maior uso de dados com big data e inteligência artificial.
Estudo
A proposta está no informe especial Covid-19 Nº 7 da Cepal, entitulado “Universalizar el acesso a las tecnologías digitales para enfrentar los efectos del COVID-19” (clique aqui para baixar). O reporte destaca a importância das tecnologias de informação e comunicação (TIC) para a economia e a sociedade durante a crise mundial. A entidade coloca que, se a pandemia acabou por acelerar a transformação digital, há também aumento das desigualdades socioeconômicas pela falta de acesso a saúde, educação e trabalho. E, por isso, o alcance de políticas públicas dos países latino-americanos tem sido limitado.

Segundo o documento, em 2019, 66,7% da população da região tinham conexão à Internet. O terço restante tinha acesso limitado ou nenhum às tecnologias, especialmente por idade ou localização geográfica. A Cepal destaca diferenças significativas entre áreas urbanas e rurais. No primeiro caso, 67% dos domicílios têm acesso. Nas rurais, 23%. Por faixa etária, 42% dos menores de 25 anos e 54% dos maiores de 66 anos não tinham conexão à Internet.

Conforme explica a entidade: “O documento acrescenta que a baixa acessibilidade consolida a exclusão dos domicílios de menores rendas. O custo do serviço de banda larga móvel e fixa para a população do primeiro quintil de renda chega a 14% e 12% de sua renda, respectivamente. Isso é cerca de seis vezes o limite de referência de 2% da renda recomendada pela Comissão de Banda Larga das Nações Unidas.”

“A diferença entre os estratos econômicos mais altos e os mais baixos condiciona o direito à educação e aprofunda as desigualdades socioeconômicas. Para garantir uma educação inclusiva e equitativa e promover oportunidades de aprendizagem ao longo de todo o ciclo educacional, deve-se aumentar não somente a conectividade e a infraestrutura digital, mas também, as habilidades digitais de professores, bem como a adequação dos conteúdos educacionais para o âmbito digital”, declarou no comunicado a Secretária-Executiva da Cepal, Alicia Bárcena.

Brasil e pós-pandemia
O Brasil aparece entre os países que mais mostraram crescimento em volume novos negócios digitais no período da pandemia, com um aumento de 450% em sites de e-commerce comparando abril de 2020 com o mesmo mês de 2019. Proporcionalmente, contudo, o País ficou atrás de Colômbia e México. Em se tratando de sites empresariais, o aumento foi de 360% no Brasil e no Chile, enquanto Colômbia e México apresentaram crescimento de 800%.

O relatório diz ainda que, em um cenário ainda hipotético de pós-pandemia, a demanda baseada em canais online implicará em esforço de países e do setor privado para oferecer um serviço melhor, baseado na flexibilidade, na proximidade local e na capacidade de reação. “A região deve avançar para sistemas produtivos mais diversificados, homogêneos e integrados para aumentar a produtividade e a inclusão produtiva, o que se traduziria em maiores níveis de emprego e salários”, conclui Bárcena.

Fonte: teletime