Advogada de Pernambuco cria Lawtech e entra para lista das mulheres mais influentes na tecnologia mundial

Karla Capela Morais, CEO da KOY Inteligência Jurídica, conta como criou uma solução que atende a milhares de advogados pelo mundo afora.

Em época de “Techs” e “Bots”, gerar um sistema que seja realmente efetivo e ajude uma vasta gama de pessoas é um desafio. Foi justamente essa demanda que levou Karla Capela Morais a fundar a Koy Inteligência Jurídica, uma lawtech cuja plataforma de gestão jurídica com Inteligência Artificial é pioneira no mundo inteiro.

Atuando há mais de 20 anos na área jurídica, Karla Morais percebeu como a falta de um sistema integrado entre os mais de 150 sistemas jurídicos brasileiros tornava quase impossível a agilidade na avaliação e julgamento de processos. A partir daí, decidiu implantar na empresa que atuava, em 2014, um gerenciamento com base em metodologias ágeis, e a partir disso, visualizou um sistema que possibilitasse gestão à vista, com dados eficientes.

A solução da KOY foi resultado desse processo, cujo objetivo era justamente espelhar dados e documentos judiciais e sobre eles fazer inferências inteligentes e estratégicas. Foi assim que Watson veio fazer parte do time, já que consegue processar em linguagem natural todos os dados necessários a essas inferências. Assim como a plataforma da IBM, que permite o desenvolvimento de tecnologia com Inteligência Artificial, Machine Learning e Processamento de Linguagem Natural, fatores fundamentais na avaliação automática e segura de milhões de processos.

Na entrevista abaixo, a simpaticíssima Karla Morais conta um pouco sobre sua trajetória, a criação da Koy e como o mercado recebeu essa nova tecnologia, laureada com uma posição de destaque no Think 2020, evento de tecnologia da IBM e que coloca Karla na seleta lista Women Leaders in AI. A Advogada fala também sobre o importante papel da mulher no cenário de tecnologia e desenvolvimento.

A entrevista foi intermediada pela jornalista Patrícia Stedile e pela diretora adjunta da Mulher da Tecnologia da Assespro-PR, Ana Lúcia Bittencourt Starepravo.

Assespro: Conte-nos um pouco sobre sua experiência na área jurídica.

Karla Morais: Eu me formei em Direito na Universidade Católica de Pernambuco no ano de 2002 e comecei a atuar em várias áreas do Direito. Nesses quase 20 anos de atuação, vivenciei o quanto de tempo é direcionado a serviços manuais e burocráticos, como a leitura de processos e agendamentos de prazos, serviços que consomem muito tempo e tornam o trabalho do advogado pouco produtivo. No Brasil, 70% do tempo do advogado é direcionado a esses trabalhos burocráticos. Some a isso o fato do Brasil possuir mais de 159 sistemas jurídicos não integrados. Sobra pouco tempo para os advogados colocarem sua expertise em prática e definir as melhores estratégias para cada caso. Não é à toa que muitos escritórios ainda sofrem com a baixa retenção de profissionais, que se sentem pouco atraídos pela realização de trabalhos administrativos (como elaboração de planilhas, leitura e agendamentos de prazos).

Assespro: Como foi o processo de observar de forma pioneira essa demanda por tecnologia em sua área e chegar à concepção da KOY?

KM: Em 2014, o Raimundo e Capela – Jurídico Estratégico, escritório onde o KOY nasceu, recebeu uma demanda enorme de um grande cliente às vésperas do Carnaval. Esta situação me fez pensar em como otimizar o desempenho no escritório. Conversando com familiares e amigos, tomei conhecimento da metodologia Ágil. Comecei a estudar e vi que era possível implementá-la junto à metodologia de desenvolvimento de software dentro de um escritório de advocacia. E assim, em 60 dias saímos de uma média de 20 encerramentos para 120. Foi o pontapé inicial

Assespro: E como foi o “casamento” com a tecnologia da IBM?

KM: Bom, o problema já estava mapeado, precisávamos era partir para a implementação. Estava claro que deveríamos resolver alguns problemas prioritários: integrar os sistemas, processar o material e desenvolver uma plataforma que apresentasse tudo isso de forma “amigável” e clean. Seria necessário muita Inteligência Artificial e Processamento de Linguagem Natural. Exatamente o que o Watson, da IBM, oferece. Uma plataforma de desenvolvimento e integração com toda a expertise da IBM. Assim surgiu a Norma, nossa assistente jurídica virtual. Enquanto uma pessoa leva em torno de 1 hora e meia para ler rapidamente um processo de cerca de 200 páginas, a Norma faz isso em 6 segundos e oferece a informação vital contida nesses documentos.

O mais sensacional disso tudo é que conseguimos humanizar o trabalho jurídico, levando qualidade de vida ao profissional da área. Muitos falam que a tecnologia veio para roubar empregos. Vejo como justamente o contrário! A tecnologia traz oportunidades e seu objetivo é sempre de inclusão de pessoas.

Assespro: Você foi a única mulher da América Latina a receber o prêmio internacional da IBM direcionado às mulheres com negócios em I.A. Fale sobre a importância desta conquista.

KM: A IBM divulgou uma lista durante sua conferência anual Think Digital das 35 mulheres líderes de negócios excepcionais que usam Inteligência Artificial no mundo inteiro, e meu nome estava nessa lista. Fiquei surpresa, pois durante o desenvolvimento da empresa sempre estivemos muito focados em nosso propósito de mudar a forma como se faz justiça no mundo. Minha finalidade sempre foi levar praticidade e agilidade ao trabalho dos profissionais da minha área, assim, receber um reconhecimento global dessa magnitude e de um player como a IBM cuja tradição na tecnologia fala por si só, é realmente emocionante.

Assim como no Direito, a Tecnologia ainda é um ambiente com um viés muito masculino, e este prêmio da IBM é como uma lupa sobre nós mulheres, que merecemos ter as mesmas oportunidades que todos, sempre com base em nossas capacidades.

Tive a sorte de ser educada em uma casa onde não havia distinção entre sexos, e por isso nunca pensei que ninguém tivesse o direito de dizer que esse lugar não era para mim. Mas, percebo que em muitos lugares isso não acontece desta forma, o que é uma pena. Por isso, minha luta é pela pluralidade e a possibilidade de se enxergar os meios por um outro prisma. A começar pela palavra empoderamento. Não gosto dela, porque quem dá pode tirar e acredito que a mulher já nasce forte por si só.

Assespro: Você enfrentou algum tipo de preconceito por ser mulher durante o desenvolvimento e lançamento da sua tecnologia, por estar à frente do projeto? Como avalia esta postura em nosso mercado atual?

KM: Não, pelo contrário. Eu tive muitas interações positivas validando meu trabalho e me ajudando a ver talentos que eu nem sabia que tinha. Mas reforço, isso parte da minha postura de não avaliar a capacidade pelo sexo, e sim pela disposição de colaboração. Não podemos deixar de compartilhar conhecimento, tudo o que for excludente não irá se firmar no mercado.

Por exemplo: muitas empresas não contratam gente mais velha, e acho isso um absurdo! Quanta experiência e expertise são perdidas desta maneira. As oportunidades, repito, não deve partir de ideias encaixotadas. A tecnologia tem espaço para todos, é plural, e aqui na KOY, sempre buscaremos o máximo de diversidade porque assim, certamente teremos sempre um produto de alcance, qualidade e que gere satisfação aos nossos clientes.

Assespro: A sua trajetória até aqui serve como uma inspiração para mulheres no Brasil a fora. Principalmente na área da TI. Quem mensagem deixa a elas?

KM: Estamos passando por uma disrupção de época, ou seja, muitos aspectos da vida estão mudando. E isso está sendo acelerado pela pandemia que vivemos com a Covid-19. O mundo está recebendo uma amostra grátis do que é ser mulher, mãe e profissional e dar conta de tudo ao mesmo tempo.

Sem dúvida, estamos entrando na época da colaboração e do mundo plural. Então precisamos nos abrir para o novo e parar de se questionar “será que isso é pra mim?”. Oras, se você tem a capacidade de se questionar, tem a capacidade de buscar soluções e quando se tem vontade, não existe força maior. O primeiro passo é estar aberta a mudanças e não se “encaixotar” em definições preconcebidas.

Deixo como sugestão para as mulheres se abrirem para este mundo da TI os cursos online, sendo que muitos neste período de isolamento estão sendo oferecidos de modo gratuito. Até Harvard está com cursos abertos, entre outras ótimas instituições brasileiras.

E uma última dica: vamos nos voltar para o campo do até então tido como impossível, pois há poucas pessoas lá e certamente muitas oportunidades.

 

 

 

 

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