Brasil ainda lida com o futuro que já passou

SÃO PAULO

No mercadinho, pagava a conta colocando as compras em uma esteira. Nada de caixa humano, nem de passar cada mercadoria pela leitora ótica. Era nos EUA, faz cinco anos.

Para pagar a conta de luz, porém, mandava cheques pelo correio. Um dia, na rua, uma senhora chinesa me pediu em inglês precário que eu falasse com algo que parecia um celular: era um tradutor automático.

Para alugar um carro, jamais falei com uma pessoa. Por um site, me registrei na locadora, que me enviou um cartão com chip. Fazia a reserva pela internet, abria o carro com o cartão, na garagem mais próxima, toda automática.

Mas, para pagar o aluguel de casa, passava o cheque pela fresta da porta do zelador. No Brasil, não assino um cheque faz anos. Em lugares avançados da China, o papel-moeda entra em desuso e discute-se a transformação radical de dinheiro e bancos.

Tecnologias são adotadas com defasagens, por costume ou decisões sociopolíticas de proteger certos comércios ou profissões. Ainda assim, o ganho de eficiência derivado do uso de tecnologia 4.0 tende a atropelar não apenas negócios ou profissões, mas países inteiros. Errado é pensar que o debate se restringe ao que fazer de inovações chocantes. Há o futuro que ainda não chegou, mas também angustiante é o futuro que já passou.

No Brasil, há trabalhos obsoletos faz décadas, mortos por tecnologias ora primitivas. Há massas de cobradores de ônibus, ascensoristas, porteiros ou frentistas, trabalhos de escassa produtividade. Ou seja, mal pagos.

Não se trata de jogar as pessoas na rua da amargura, de hora para outra. O problema é criar uma economia eficiente, que cresça para absorver mão de obra em empregos produtivos; é haver escola decente para que as pessoas possam ser empregadas em trabalhos melhores.

Além de inevitável, a transformação tecnológica é necessária. Sem máquinas e bioquímica na agricultura, ainda levaríamos vidas pobres, sob risco de escassez de comida, como no século 19 do mundo mais rico ou até os anos 1970 do Brasil.

Enquanto relegamos pessoas ao inútil e mal pago trabalho de cobrador ou de lavrador de subsistência, a Califórnia testa máquinas para localizar e eliminar ervas daninhas. Em breve, a agricultura comercial estará tomada por colheitadeiras sem motoristas, dirigidas por computador e GPS.

Traduções técnicas, transações no mercado financeiro, avaliação de crédito pessoal, de risco de seguro, advocacia rotineira, tudo isso vai sendo aos poucos feito por máquinas inteligentes, assim como nossos exames de laboratório. Automóveis sem motoristas chamam a nossa atenção, mas veículos autônomos vão tirar o emprego de motoristas profissionais. Crianças já aprendem por máquinas (internet); nós é que fingimos acreditar apenas na escola tradicional.

Sim, é preciso também reorganização social, redução do tempo de trabalho e redistribuição dos ganhos de renda. O problema não está só na automatização.

A persistência de empregos obsoletos, mal pagos e limitantes da criatividade, motivos da nossa pobreza, é um exemplo escandaloso de que temos um problema humano, demasiadamente humano: resolver o conflito social que relega pessoas a esses trabalhos. Estamos atrasados uma ou duas revoluções industriais. Não adianta pensar apenas na 4.0.

É um clichê tedioso lembrar, enfim, que temos um problema primitivo com educação básica: ensinar a ler, a escrever e a aritmética básica. Na prática proibimos nossas universidades de reinventar cursos e atrair professores e pesquisadores estrangeiros, o que o país de tecnologia mais avançada do mundo faz com gosto.

Mesmo as melhores universidades do mundo já pensam o ensino fora da sala de aula, à distância ou outro tipo de formatação qualquer. Nossos cursos superiores burocráticos são cartórios isolados, com formatação de meio século atrás.

Enquanto isso, no Japão, são testadas as primeiras máquinas de ler mentes.

Fonte: Folha de S. Paulo.